menu
Évora 2027

Anúncio da Candidatura de Évora a Capital Europeia da Cultura/ 2027

Intervenção do Presidente da Câmara Municipal Évora, Dr. Carlos Pinto de Sá, no Salão do Património de Paris, a 2/11/2017

Num belíssimo texto com que brindou Évora, José Saramago, prémio Nobel da Literatura, escreveu: "O mais surpreendente será pensarmos que uma tal beleza começou por não existir. O lugar estava ali, estava ali a colina, o monte, a altura desafogada de onde os olhos poderiam abraçar um vasto horizonte, tão vasto que mais parecia estar a planície a empurrá-lo até ao infinito. Apesar de perto correr uma ribeira, daquelas que sempre atraíram e depois fixaram a morada dos humanos para lhe oferecer o alimento e o refresco do corpo, esta colina, que um dia viria a receber o mágico nome de Évora, só teve para dar, durante anos e anos sem conto, a mesma humildade de quantas a rodeavam – ser atalaia de pastores e mirante de viajantes perdidos à procura de um caminho. “ (in "Évora - Património da Humanidade", Eduardo Gageiro/José Saramago, Ed. Câmara Municipal de Évora, 1997)

Évora foi fundada há mais de dois mil anos pelos Romanos mas a presença humana, neste território, regista vestígios com mais de cinquenta mil anos. Por exemplo, o Cromeleque dos Almendres, muito mais antigo que Stonehenge, é um dos expoentes das centenas de monumentos megalíticos da região.

Em Évora, viveram e cruzaram-se diferentes povos e civilizações, dos romanos aos árabes. O nosso Centro Histórico, património mundial, muito deve à permanência do poder real na cidade. Mas, verdadeiramente, a identidade de Évora é a identidade desta inigualável região portuguesa que é o Alentejo, um terço do território continental. Identidade que é, antes de mais, cultural, com uma gastronomia única e deliciosa, o vinho, o azeite, a arquitectura ou o canto alentejano também ele património da humanidade. O alentejano tem uma dignidade própria que se traduz, também, em saber receber, abrir a porta da sua casa, cultivar a amizade e o trabalho.

Nesta cidade carregada de história e tradição, estamos a construir a modernidade com as vistas largas a que a planície alentejana nos convida. História que se sente e respira nesta cidade única e surpreendente. Cidade construída ao longo dos tempos por gente oriunda dos quatro cantos do Mundo, Évora permanece como um cais plantado no meio da planície alentejana. Os ventos que a percorrem ondulando a seara, desde o fundo dos tempos, misturam odores marítimos atlânticos e mediterrâneos. Evora é porto de abrigo, lugar de chegadas e partidas, lugar de encontro de gente, lugar de miscigenação de culturas, lugar de tensões entre a história e a tradição por um lado e a criação contemporânea, o conhecimento e o pensamento crítico por outro. Essa relação dialógica, por vezes disruptiva, presente em todos os tempos, mediada sempre pela cultura, matriz propiciadora de dinâmicas socio-politicas, não se vê à vista desarmada nas pedras, que serviram para construir os seus monumentos, no edificado, nas três muralhas que a cercam (romana, medieval e de Vauban) mas sente-se, porque permanece nas memórias dos lugares. Por vezes acumuladas pelo sedimento da história, importa resgatar essas memórias, trazê-las à tona dos dias que passam e, pela arte e pela cultura reiniciar, num movimento perpétuo, um processo de resignificação, uma narrativa que envolva arte contemporânea, conhecimento, lugares patrimoniais e públicos. Évora é uma Cidade onde a tensão criativa encontra nas ruas e praças, o espaço privilegiado para desafiar quem a vive a participar na construção de um outro mundo.

A herança de um vasto e rico património, que mereceu a inscrição na lista do património mundial pela UNESCO em 1986, assume hoje um papel central e um desafio para uma gestão centrada na pessoa, nos valores humanistas, na defesa do direito à cidade e à cultura.

Em Évora, vive-se e sente-se todos os dias a presença da Cultura como pilar essencial do desenvolvimento, como forma de atrevimento e provocação constantes perante os vetustos dois mil anos de história. Construir a Cidade de Cultura é um processo participado que implica uma grande capacidade de envolver as forças criativas sem a tentação de as conter ou tutelar. A construção do futuro tem de ser capaz de romper com o passado e, simultaneamente preservar e respeitar o seu legado identitário que, em cidades como Évora, assume o peso do que é essencial.

Na construção da candidatura de Évora a Capital Europeia da Cultura 2027 surgem desde logo um conjunto de interrogações / desafios: Até que ponto a cultura pode contagiar e ser contagiada pela diversidade da vivência e da construção colectiva da sociedade, na cidade e na região Alentejo? Até que ponto a reprodução da imagem da cidade de cultura e as práticas que lhe forem associadas, permitem mediar a relação dos indivíduos com o património físico e imaterial, num território? Até que ponto o confronto inesperado com artes na rua, contribui para a transformação do espaço, do largo, da rua, em lugar, em espaço público, em espaço comum tornando bens comuns quer os objectos artísticos e culturais, quer os lugares patrimoniais onde decorrem? Até que ponto é que as Expressões Artísticas transportadas para o espaço público se convertem em Artes Sociais, Relacionais, Públicas? Até que ponto é que, acontecendo no espaço público, mediando a relação entre o lugar, os indivíduos e o património, as artes tendem a reforçar as relações identitárias, pela integração social, pela promoção activa de mais cidadania, pela democracia cultural, pela criação de territórios simbólicos de partilha e fruição de criatividade, pela construção de lugares de vida?

É para lá desse ponto imaginário que nos propomos navegar num processo participado pela população, pelos criadores, pelos agentes culturais, de elaboração da candidatura de Évora a Capital Europeia da Cultura 2017, redensificando de vida o espaço público, criando novas centralidades no Centro Histórico através de abordagens de acupunctura urbana pela criação de espaços de condomínio criativo, preservando a dimensão existencial da cidade e o direito à cidade, criando condições de participação cidadã para a construção permanente da cidade como um habitat humano comum – criativa, democrática, sustentável, solidária com o território. Continuaremos esse processo e encontraremos as respostas com e na cidade que Saramago nos revelou: “Porque Évora é principalmente um estado de espírito, aquele estado de espírito que, ao longo da sua história, a fez defender quase sempre o lugar do passado sem negar ao presente o espaço que lhe é próprio, como se, com o mesmo olhar intenso que os seus horizontes requerem, a si mesma se tivesse contemplado e portanto compreendido que só existe um modo de perenidade capaz de sobreviver à precaridade das existências humanas e das suas obras: segurar o fio da história e com ele bem agarrado avançar para o futuro. Évora está viva porque estão vivas as suas raízes." (in "Évora - Património da Humanidade", Eduardo Gageiro/José Saramago, Ed. Câmara Municipal de Évora, 1997)

keyboard_arrow_left Voltar